O Poeta Cansado Cap. 1

Ele pingava, tomava seu último gole, tragava seu último cigarro, jurava seu último arrepio em versos mentidos. Cansado poeta, aquilo não lhe bastava, criava um mundo pra cessar seu escudo, sua divisão entre a razão e a mera criação.

Sujo de alma, seu corpo não lhe importava, descuidado e sem penteado, sapatos velhos e sujos, barba espinhosa dos campos escuros. Olhos negros e suas olheiras, companheiras de noites em claro. Com fome e vazio na barriga, marcas no corpo de sua última briga.

Ele prometera ser seus últimos versos, mal sabia deles e já sabia de todos, mentia pra si mesmo dizendo parar.

Pobre poeta, tão rico e frustrado, cheio de vazios pingados, havia parado pra deixar, mas não conseguiu largar.

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E nada mais

E tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar

A velha brisa pra te abraçar

O pássaro e o seu cantar

O fôlego e o suspirar

O pensamento e o questionar

A liberdade e o optar

Um pouco de mim e o meu rimar

Gatos pingados e o poder de chorar

Um pouco de sol e um pouco de luar

O vento forte e seus cabelos à voar

Uma caneta e folhas pra rabiscar

Um novo Novo pra recomeçar

O entardecer pra tudo se acalmar

O meu silêncio pro seu falar

E a vida pra atuar

Em troca, me dê seus motivos para não chorar.

E nessa chuva

Enquanto eu tento escrever, ao menos um linha que me agrade, há um mundo lá fora, só de imaginar que alguém chora, só de imaginar que alguém abraça seus joelhos tentando se proteger, só de imaginar que alguém morre, me dá mais vontade de viver. Não por estar, mas por ser, ver e fazer acontecer.

Enquanto eu tento escrever, meus olhos se fecham  involuntariamente, lá fora chove e aqui eu choro. Eu busco algo em algum canto, e lá fora alguém busca um canto aqui dentro. Aquele velho senhor vai desistir e o pequeno jovem vai começar a roubar.

Enquanto eu tento escrever, alguém  toca uma música  pra aliviar-se, alguém aquece seu café pro sono não chegar, e outro alguém evita tomar pra insônia não vir morar.

Enquanto eu tento  escrever, alguém soluça com alguma perda, alguém alimenta seu filho recém nascido, outro chora com seu filho desaparecido.

Enquanto eu tento escrever, alguém se revira na cama, alguém acorda com um pesadelo, aos prantos e em desespero. Alguém, como eu, busca escrever. Alguém espera o amanhecer, alguém irá acordar nele.

Alguém está nessa chuva, alguém chora nessa chuva, alguém foge dessa chuva, alguém busca essa chuva, alguém grita pra essa chuva, alguém morre por essa chuva, alguém soluça nessa chuva, alguém me inventa nessa chuva, alguém observa essa chuva, alguém pediu por essa chuva, alguém reclama dessa chuva, alguém escreve nessa chuva, alguém faz versos dessa chuva. Enquanto eu tento escrever.

Enquanto eu tento escrever, há um mundo lá fora, bilhões de lá e campo à fora, e eu apenas tento escrever e agora peço pra ir embora.

Piloto

E como você vai terminar, se ainda nem começou? Como dar começo a algo que há tempos pede pra você um primeiro parágrafo? Pra que pensar no fim se ainda nem tem um começo? Pra que tantas perguntas se nem é preciso de apresentação? Apenas escreva. E respire.